domingo, julho 07, 2013

Origem e Evolução Humana

Publicado em Ecologia Humana
O Homem ainda está em processo evolutivo?
Por Marcelo Szpilman*

A afirmação “o homem descende dos macacos”, feita por Charles Darwin ao lançar sua teoria evolucionista em 1859, foi tão forte e marcante que até hoje ainda há pessoas que acreditam ser ela verdadeira. E você, o que acha? O homem é uma evolução do macaco? Como e quando surgiu o homem? Quais foram as pressões seletivas que induziram mudanças físicas no homem? Por que passamos a andar em pé? O que nos levou ao descomunal aumento do cérebro? E ainda, o homem continua em processo evolutivo ou atingiu seu limite?

São perguntas instigantes sobre um tema que sempre desperta grande curiosidade. E o objetivo desse artigo é responder a todas elas e a muitas outras. Mas vamos começar entendendo um pouco o progresso da opinião sobre origem e evolução.

As idéias de Darwin sobre adaptação, sobrevivência dos mais aptos e evolução progressiva não são originais. Elas já haviam sido levantadas por outros pesquisadores e naturalistas que o antecederam, incluindo o grande filósofo grego Aristóteles, que, em 300 A.C., foi o primeiro a delinear os princípios de adaptação e seleção natural, sem, porém, compreendê-los. Goethe, em 1794, destacava que a futura indagação dos naturalistas seria a de como foi que os bovinos teriam adqüirido seus chifres e não o porquê de sua utilização. Saint-Hilaire, em 1795, suspeitava que as espécies seriam variações em torno de um mesmo tipo original e que as mesmas formas não se teriam perpetuado desde a origem de todas as coisas. Seu próprio avô, Dr. Erasmus Darwin, também defendia algumas dessas idéias em 1795.



No entanto, a maioria desses antecessores apenas levantavam dúvidas e conceitos sobre os fatos que observavam na natureza, sem conseguir explicar o porquê deles existirem. Somente dois naturalistas conseguiram formular teorias para tentar explicá-los amarrando os diversos conceitos isolados já levantados em sua épocas: Lamarck e Darwin. Ainda assim, todos devem ser admirados pela coragem de expressar opiniões totalmente novas e contrárias aos conceitos reinantes e muito enraizados da Criação Divina (criacionismo) __ tudo e todos os seres foram criados por Deus exatamente como são vistos hoje.

Para se ter uma idéia de como o criacionismo graçava unânime, Georges Cuvier, naturalista francês que deu início à paleontologia moderna ao identificar espécies de dinossauros fósseis, em 1817, atribuiu sua extinção ao fato deles não terem conseguido embarcar na Arca de Noé. Dizer naquela época (e ainda hoje para alguns) que os seres vivos existentes eram descendentes de outros que sofreram modificações e que o homem descendia do macaco não podia ser considerado outra coisa se não blasfêmia, heresia.

O naturalista francês Lamarck, em 1801, defendia a tese de que todas as espécies descendiam de outras e foi o primeiro naturalista cujas conclusões provocaram grande atenção nos meios científicos. Deve-se a ele, o grande serviço de haver despertado a atenção de todos para a possibilidade de que as modificações (evolução) seriam o resultado de leis, e não de intervenções divinas. Entretanto, Lamarck trilhou um caminho errado ao defender a lei do desenvolvimento progressivo, onde as modificações adqüiridas pelo fator uso-e-desuso seriam passadas para as gerações seguintes. Para ele, o hábito de um determinado procedimento físico ou influência da natureza fazia com que o orgão ou membro envolvido fosse aos poucos, de geração em geração, adaptando-se e melhorando seu desempenho. O pescoço comprido da girafa, por exemplo, seria devido à necessidade de alcançar as folhas altas das árvores, ou seja, de tanto esticar o pescoço a girafa teria aumentando seu tamanho (veja exemplo teórico mais à frente). Em contrapartida, se um membro não fosse usado ele acabaria, também aos poucos, regredindo até desaparecer. A influência de suas idéias foi tão forte, que até hoje ainda existem pessoas que acreditam nessas teorias ultrapassadas.

Charles Darwin foi o primeiro naturalista, em 1859, a apresentar os fatos evolutivos dos seres vivos como devidos a um equilíbrio de forças em conflito. No entanto, devemos admitir que ao tratar da seleção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies, Darwin não tinha total compreensão de como se dava o processo evolutivo e não contava com os conhecimentos que hoje temos para saber como homens e macacos descenderam de ancestrais comuns que se ramificaram em linhagens diferentes. É importante dizer que sua teoria só foi integralmente aceita pela ciência depois da descoberta da estrutura em dupla-hélice do DNA, em 1953. Na introdução de seu livro A Origem das Espécies, Darwin dá um exemplo de humildade: "Ninguém deve se surpreender com o fato de permanecerem obscuros tantos pontos relacionados com a origem das espécies, desde que se dê o devido desconto a nossa profunda ignorância quanto às inter-relações existentes entre todos os seres vivos que nos circundam".

Pois bem, ainda que os criacionistas não acreditem, o homem, como todos os seres vivos, é um produto da evolução. No entanto, surge daí uma importante questão: as forças que possibilitaram essa evolução continuam atuando? Antes e para responder, vale rever alguns conceitos básicos sobre a nova teoria da evolução e os fatores seletivos que canalizaram a evolução humana.

Para quem tem interesse em voltar ao passado, ao final desse artigo há um texto que descreve, de forma breve e cronológica, como ocorreu essa evolução, quando e onde a linhagem hominídia (homem) se separou da linhagem antropóide (gorilas e chimpanzés) e quais foram os estágios pelos quais a linhagem hominídia passou até atingir o nível humano atual.


A Moderna Teoria da Evolução

Apesar da teoria evolutiva moderna ter sido pautada em torno de uma nova combinação dos conceitos originais de Darwin, ela é essencialmente uma teoria de dois fatores básicos: a diversidade e a adaptação são encaradas como resultados da produção contínua de variação genética e dos efeitos seletivos do ambiente. Explico melhor.

Toda variação genética (mudança de uma característica estrutural) em uma espécie advém das mutações que ocorrem ao acaso e com intervalos de tempo indefinidos nos indivíduos que a compõe. A mutação __ alteração na constituição genética em um dos dois gametas que formarão um novo embrião __ irá gerar uma variação estrutural que poderá ser vantajosa, nociva ou sem importância para a adaptação do indivíduo ao seu ambiente.

A seleção natural, que fixa padrões severos e constitui uma peneira pela qual só passa uma minoria, irá atuar no sentido de "por a prova" tal variação estrutural. Sendo vantajosa para o indivíduo, terá enormes chances de ser preservada e passada para as gerações futuras. Caso seja nociva, fará com que o indivíduo tenha poucas chances de sobreviver ou não permitirá que sobreviva e se reproduza. As variações sem importância não são afetadas pela seleção natural e passam para as gerações seguintes de forma oscilante.

Sendo sempre muito oportunista e selecionando qualquer tipo de mecanismo que ajude a preservar a variabilidade genética, a seleção natural está pronta a cada geração para tomar uma direção nova e é um dos fatores mais importantes que induzem mudanças evolutivas. Mas não é o único. Entre os outros fatores está o acaso, muitas vezes responsável pelo desvio na direção da evolução.

Para entender como isso ocorre, voltemos ao tema da mudança evolutiva ser um processo de dois fatores básicos. O primeiro é a produção de variação genética que ocorre na reprodução sexual dos seres vivos, onde o acaso é o regente supremo. Um macho produz bilhões de gametas durante a vida e a fêmea centenas. Apesar disso, um casal só pode produzir, no máximo, dependendo da espécie, uma centena de filhotes. Aí entra o acaso, responsável pela escolha dos gametas que formarão os embriões que terão sucesso. Podemos dizer então que a mutação é governada pelo acaso antes de ser testada pela seleção natural, o segundo fator, que então escolherá os genótipos (constituição genética da prole) que produzirão a geração seguinte.

A seguir, são apresentados dois exemplos que ajudarão você a entender como o acaso e a seleção natural coexistem e atuam nas novas variações e adaptações dos seres vivos, direcionando sua evolução.

Exemplo Teórico: como surgiu o pescoço comprido dos antílopes e girafas?

Imaginemos, hipoteticamente, que a há milhões de anos na África, em uma população herbívora ruminante qualquer com comprimento de pescoço mediano, nascem, ao acaso, dois indivíduos com variação: um com pescoço menor do que a média e outro com o pescoço maior do que a média. Como os indivíduos dessa espécie competem entre si e com outras espécies herbívoras pela vegetação disponível na copa das árvores, teremos duas situações. O indivíduo com pescoço menor terá poucas chances de sobreviver, já que não poderá alcançar as folhas que a maioria alcança. Já o indivíduo com pescoço maior, passará a ter um nicho diferente dos demais para se alimentar, já que conseguirá alcançar folhas que a maioria não consegue. Terá assim maiores chances de sobreviver e passar a nova característica para sua prole, que, melhor adaptada, tenderá a se tornar maioria na população nas gerações futuras. Até que ocorram novas variações nesse sentido, direcionando a evolução para um aumento gradativo do pescoço nesse ambiente.

Exemplo Real: as asas da mosca são importantes para a sua sobrevivência?
Em quase todo o planeta, as moscas, assim como a maioria dos insetos, têm nas asas um eficiente meio de sobrevivência. Com elas, podem procurar alimento e fugir dos predadores. Visto desta forma, a asa é extremamente importante, e, sem ela, o indivíduo teria poucas chances de competir e sobreviver na maioria dos ambientes naturais. Entretanto, nas praias de uma ilha do Pacífico, onde sopra um vento forte e constante, vive, protegida do vento entre pedras empilhadas, uma espécie de mosca sem asas. Ocasionalmente, ocorre uma mutação que gera o aparecimento de asas rudimentares. Basta, então, que essas asas, agora ou nas gerações futuras, sejam suficientes para um "vôo experimental" e o indivíduo é imediatamente levado para o mar pelo vento. Esse é um exemplo marcante e real de como a seleção natural atua. As asas, que são vantajosas em quase todo o planeta, passam a ser nocivas nesse ambiente. O que normalmente seria um direcionamento evolutivo natural, será sempre deletado pela seleção natural nesse ambiente em especial.

Quais foram os fatores seletivos mais importantes que canalizaram a evolução humana?

Como e por que o homem adqüiriu suas características únicas, tão distintas dos outros animais, pode ser respondido através de dois tipos básicos de fatores seletivos: as mudanças no meio ambiente e as modificações no comportamento.

As principais mudanças no ambiente foram provocadas pela criação das cadeias de montanhas no Rift Valley. Essa barreira natural passou a reter os ventos e nuvens e modificaram o clima no leste da África há 8 milhões de anos. Enquanto o lado oeste não sofreu grandes mudanças climáticas e suas florestas tropicais permaneceram abrigando os ancestrais dos gorilas e chimpanzés, o lado leste caracterizou-se por um aumento gradativo de aridez nas áreas habitadas pelos hominídios (ancestrais do homem), causando a criação de um novo habitat que variava desde as savanas florestadas até as áreas muito áridas, quase desérticas. A ocupação e sobrevivência nesse novo habitat forçou as mudanças no comportamento. E diversos fatores intimamente correlacionados, descritos a seguir, favoreceram e explicam essas modificações no comportamento.

A Locomoção Bípede

Freqüentemente diz-se que os nossos ancestrais adotaram posição ereta e locomoção bípede quando passaram da vida arbórea para a vida no chão. Contudo, esta correlação não é necessária. Nenhum dos outros grandes primatas terrestres adotou o bipedalismo. Gorilas e chimpanzés andam no chão com as articulações dos dedos e os babuínos são estritamente quadrúpedes. Como não sabemos exatamente como isso ocorreu, podemos apenas sugerir que alguma pecurialidade dos ancestrais arborícolas dos hominídios primitivos, como braços mais curtos, assim como alguma pré-adaptação anatômica, tenha favorecido o bipedalismo.

A locomoção bipedal, em especial nos seus estágios primordiais, deve ter sido uma forma muito ineficiente de locomoção para um mamífero de quatro membros. Porém, só evoluiu nessa direção porque fornecia vantagens. E, presumivelmente, suas maiores vantagens seletivas foram permitir uma melhor visão das redondezas (prevenção de predadores e visualização de alimento), liberar os membros anteriores para problemas novos de comportamento (possibilitou um melhor aproveitamento e utilização das mãos na manipulação de ferramentas e no transporte de alimento) e diminuir a área do corpo que sofria a incidência da radiação solar em campo aberto (possibilitou a procura de alimento nos horários mais quentes, quando os outros animais, especialmente os predadores, estavam inativos).

O início do bipedalismo se encontra nos primórdios da linhagem hominídia, mas seu aperfeiçoamento deve ter ocupado a maior parte do tempo subseqüente. As diferenças de pélvis e extremidades posteriores entre os gêneros Australopithecus e Homo mostram que foram necessários cerca de 2 milhões de anos para aperfeiçoar o bipedalismo.

A Utilização de Ferramentas
Acreditava-se antigamente que o uso e a fabricação de ferramentas fosse o fator fundamental para o aumento dramático no tamanho do cérebro no estágio Homo erectus. No entanto, sabe-se hoje que o uso e a confecção de ferramentas é muito comum no reino animal __ os chimpanzés são exímios no uso de ferramentas e capacitados a adaptar implementos naturais aos seus propósitos.

A confecção de ferramentas simples no estágio Australopithecus e Homo habilis aparentemente não provocou uma pressão seletiva forte para o aumento no tamanho do cérebro e não exigiu uma reconstrução mais profunda das extremidades anteriores. As ferramentas só se tornaram cruciais para a evolução humana, com maior significado seletivo, somente na passagem do estágio Homo erectus para Homo sapiens, quando a sobrevivência passou a depender do aumento na capacidade de criar e usar novas e melhores ferramentas de trabalho e de luta.

O Aumento no Tamanho do Cérebro


O caráter diferencial mais importante entre o homem e os antropóides (gorilas e chimpanzés) é certamente o descomunal aumento do cérebro, acompanhado pelas faculdades permitidas por essa nova massa encefálica. O aumento dramático de tamanho do cérebro humano no espaço de tempo compreendido entre 1,3 e 0,3 milhão de anos atrás, ou seja, 1 milhão de anos, é a modificação evolutiva mais rápida que se tem conhecimento __ dos primeiros macacos hominóides aos primeiros hominídios, cerca de 12 milhões de anos se passaram sem grandes aumentos na capacidade endocraniana média.

Qualquer tentativa de descobrir o que teria sido responsável por este acontecimento evolutivo dramático é sempre hipotética. Certamente, o responsável foi uma combinação de pressões seletivas sobre a mudança do homem para uma zona adaptativa inteiramente nova. Entre os fatores causais, três parecem ter sido particularmente importantes. Antes de descrevê-los, cabe um esclarecimento quanto à suposição de que a introdução de uma dieta mais rica em carne (proteína) foi uma das principais causas do rápido crescimento do cérebro.

Sabemos hoje que uma dieta rica em proteína animal é muito importante para o desenvolvimento da criança. No entanto, não se pode atribuir a esse fato tamanha distinção, haja vista que nenhum dos grandes mamíferos carnívoros evoluiu para um considerável aumento do cérebro simplesmente porque comia carne. Como será visto adiante, o mais importante foi a mudança na dieta e não a dieta em si. Em outras palavras, a busca de soluções mais eficientes para a obtenção da carne (captura da presa) foi mais importante do que comê-la simplesmente. A dieta mais rica em proteínas pode, isto sim, ser considerada como um fator adicional concomitante que forneceu as condições nutritivas favoráveis ao crescimento do cérebro.

1º Fator - A caça de animais grandes: o que distinguia a caça do homem primitivo da caça inconstante de seus parentes __ chimpanzés, gorilas e babuínos capturam ocasionalmente pequenas presas __ é que para o homem a caça passou a ser uma das principais fontes de alimento (proteínas da carne) e que seu método de caça era muito diferente daqueles empreendidos pelos outros animais.

Para obter um grau crescente de sucesso na caça aos grandes animais, especialmente quando esses passaram a ser os ariscos ungulados (gnus, antílopes e gazelas) das planícies africanas, foi necessário o desenvolvimento de uma série de novos comportamentos: (a) para caçar e retalhar suas presas, permitindo a distribuição e transporte, houve um grande aumento na necessidade de inventar e manufaturar novas armas e ferramentas; (b) para um maior sucesso na caçada passou a haver a necessidade de cooperação entre vários machos, inclusive com a divisão de trabalho e responsabilidades, e o desenvolvimento de técnicas mais refinadas de comunicação; (c) as freqüentes expedições prolongadas de caça, com a conseqüente ausência dos homens, passou a obrigar o estabelecimento de campos-base onde as mulheres e crianças podiam ser deixadas sob os cuidados de guardas; (d) o sucesso na caça exigia planejamento, conhecimento dos movimentos das manadas, acúmulo de informações (memória) para localização de fontes de água, para acontecimentos estacionais e para os hábitos das várias espécies de presas, e um cuidadoso controle dos competidores. Com tudo isso, não há dúvidas de que os prêmios de caças bem sucedidas provocaram uma pressão seletiva forte para um cérebro melhorado.

2º Fator - A articulação da palavra:
planejamento, cooperação e divisão de trabalho não teriam tido muita utilidade sem um sistema eficiente de comunicação. A capacidade de falar é a característica humana mais típica, sendo provável que tenha sido a invenção-chave que provocou o passo do hominídio para o homem.

A fala permitiu a estrutura comunitária e transformou o homem em um organismo social. Como tal, havia a necessidade de mecanismos de promoção de direitos comunais, mitos e crenças. Todos esses mecanismos exerceram uma intensa pressão para a melhoria da fala, aumento do vocabulário e aumento da capacidade de acúmulo de memória. Essa cadeia de desenvolvimento inclui os mecanismos de feedback positivo, ou seja, cada progresso exercia uma pressão seletiva em favor de um desenvolvimento ainda maior do cérebro.

3º Fator - A estrutura do grupo reprodutor: existem evidências que comprovam que a evolução dos hominídios primitivos direcionada para uma estrutura mais complexa de família favoreceu a rápida evolução no tamanho do cérebro. Ao explicar esse terceiro fator, entenderemos também por que esse aumento foi tão rápido e por que parou?

É interessante saber que, basicamente, todo ser vivo existe e sobrevive para perpetuar sua espécie, passando seus genes para as gerações seguintes. Nesse aspecto, todas as evoluções adaptativas tendem para uma melhoria da eficiência dos equipamentos naturais que favorecerão a sobrevivência do indivíduo (comer e não ser comido) e sua primazia dentre seus pares para que ele tenha como prêmio o sucesso reprodutivo.

O sistema de reprodução original do homem provavelmente era a poligamia, onde a monogamia seria uma condição derivada. Explica-se: a poligamia estaria reservada ao indivíduo que, por apresentar as qualidades de líder, teria maiores possibilidades de ter mais de uma mulher __ evidências sugerem que poderia inclusive haver maior fertilidade __ e passar seus genes à próxima geração. Aos outros machos do grupo, não conseguindo usurpar o lugar do chefe, caberia no máximo, quando muito, uma mulher.

Na estrutura de população social dos hominídios primitivos, a posição de chefe do grupo, clã ou tribo não seria herdada, mas adqüirida por uma combinação de atributos, como liderança, oratória, iniciativa, coragem na caça e na guerra com outros grupos e força e habilidade na luta. A seleção natural, dentro desses grupos, passou então a favorecer o indivíduo com maior poder inventivo, previsão, liderança e, em muitos casos, cooperação, e não somente a força bruta e o egoísmo.

Aqueles que davam uma maior contribuição para a harmonia e o bem-estar do grupo poderiam, em conseqüência, tornar-se ancestrais de um maior número de descendentes viventes. No grupo social, as qualidades éticas passaram a ser importantes componentes de adaptabilidade. Desta forma, mais importante do que ser o mais forte era associar esta força à inteligência. Daí se tem uma grande pressão seletiva para melhorar rápida e continuamente o cérebro.

No entanto, todos esses fatores que favoreceram o rápido aumento do tamanho do cérebro subitamente perderam seu poder ao atingir o nível de Homo sapiens, e o tamanho do cérebro estabilizou-se. Aparentemente, houve um estágio na evolução humana em que os grupos melhor sucedidos cresceram tanto que a vantagem de fertilidade dos líderes se tornou mínima. Quanto maior fosse um grupo populacional, tanto menor seria a contribuição relativa dos genes de seu líder para o patrimônio gênico da geração seguinte e tanto mais protegido (biologicamente) do processo seletivo estaria o indivíduo médio ou abaixo da média. Assim, nos grandes grupos, o sucesso reprodutivo não estaria mais correlacionado com a superioridade genética adaptativa. Com o tempo, houve uma redução ainda maior do prêmio seletivo para as características que previamente haviam sido favorecidas durante a evolução humana.

Fica assim evidente o porquê de a tendência que criou o homem não ter continuado em direção ao super-homem. A estrutura social contemporânea passou a não dar mais prêmios de sucesso reprodutivo aos mais fortes, mais inteligentes ou mais bem adaptados. Todos os membros da sociedade passaram a se beneficiar igualmente com as descobertas médicas e tecnológicas dos indivíduos mais bem preparados. Assim, o indivíduo abaixo da média, desde que não estivesse muito abaixo, passou a viver e se reproduzir com tanto sucesso quanto o indivíduo acima da média. Não é por outra razão que, diferente dos primórdios onde havia grande semelhança física entre homens e entre mulheres, hoje temos uma incrível diversidade global de tamanhos e formatos físicos.

A Reconstrução do Crânio

O aumento do tamanho do cérebro foi o mais importante fator responsável pela reconstrução completa do crânio. Duas pressões seletivas adicionais também favoreceram esta reconstrução. Uma foi o deslocamento do suporte do crânio para frente, resultante da posição ereta. A outra foi a diminuição da pressão seletiva favorável a mandíbulas fortes e dentes grandes, desnecessários para alimentos mais macios (mudança na dieta), pré-cortados (ferramentas) ou preparados (fogo). Tudo isso possibilitou a redução das mandíbulas, dentes e a parte facial do crânio __ provocada pela redução dos músculos faciais e de todas as cristas e elevações ósseas às quais se prendiam esses músculos __ e a simultânea ampliação da parte cerebral.

O Papel do Comportamento

O comportamento (e suas mudanças) é uma das mais fortes pressões seletivas no reino animal. A evolução dos hominídios para o homem foi extremamente rica em transformações: arborícola para terrestre, dieta vegetariana para aumento da dieta de carne, uso de ferramentas para confecção de ferramentas, e outras mais. Cada uma destas modificações iniciou novas pressões seletivas, facilitando e acelerando o processo de “hominização” ou, mais posteriormente, invertendo ou interrompendo as tendências anteriores. E um dos aspectos mais significativos do comportamento hominídio foi o aumento gradual do tempo dispendido para os cuidados com a prole.

Cuidado com a prole:
a instituição dos cuidados com a prole, marcante em todos os mamíferos, permitiu um decréscimo da mortalidade ao acaso (acidental). A sobrevivência da prole passou a depender cada vez mais da qualidade do cuidado dado pelos pais. O aumento do tamanho do cérebro induzido pela prática de cuidado com a prole requereu um aumento do período de desenvolvimento do filhote e, conseqüentemente, um aumento do período durante o qual é necessário o cuidado materno. Esse desenvolvimento reforça o valor seletivo do cuidado com a prole e provoca pressão seletiva mais intensa em favor de um aumento do cérebro dos pais.

A maioria dos animais inferiores nasce com uma resposta pronta para a quase todas as situações que o ambiente lhes apresenta. Reagem instintivamente e têm pouca capacidade para aprender e acumular informações novas e úteis. Este sistema herdado de respostas prontas é chamado de “programa fechado”. Já os organismos superiores, como os mamíferos, têm um “programa aberto”. Significa ter uma capacidade muito maior de aprender e acumular informações novas que lhes permitam reagir adequadamente às situações ambientais. O gradiente de tamanho dessa “abertura” irá determinar o quão vulnerável será o filhote ao nascer __ quanto menos respostas instintivas mais vulnerável e mais dependente de cuidados.

Nos mamíferos, esse gradiente começa pelos herbívoros, cujos filhotes são capazes de correr junto à manada e escapar de predadores horas após nascer, e dependem dos cuidados maternos somente até 6 meses a 1 ano de idade (até o desmame), passa pelos carnívoros, que necessitam aprender as estratégias de sobrevivência e de caça, e para isso dependem dos pais por cerca de 1 a 2 anos, continua pelos primatas, que precisam aprender a utilizar suas ferramentas e a conviver em uma estrutura social hierárquica mais complexa, e para isso costumam permanecer sob a guarda dos pais por cerca de 1 a 3 anos, e termina no homem, cujos filhotes dependem dos pais por pelo menos 10 anos (atualmente essa dependência pode ir até os 25 anos ou mais).

O cuidado com a prole protege o jovem enquanto ele adqüire as informações que necessitará para enfrentar as leis da seleção natural. O programa aberto permite uma resposta muito mais refinada a estímulos externos, melhorando, conseqüentemente, as possibilidades de sobrevivência do indivíduo. E o aumento da abertura desse programa passou a requerer um sistema nervoso central muito maior e, assim, exerceu uma pressão seletiva adicional em favor do aumento do tamanho do cérebro.

Outra característica do cuidado com a prole é que ela é uma manifestação típica de seleção de grupo __ a espécie é considerada como um agregado de populações em competição, cada qual com uma mistura distinta de tendências. Populações com combinações boas de genes prosperarão, enquanto aquelas com combinações “perdedoras” serão eliminadas. Assim, os hominídios primitivos não enfrentavam seu ambiente adverso somente como indivíduos, mas, principalmente, como grupos de famílias ou pequenos bandos disputando os recursos com outros bandos semelhantes. Mais uma vez, a sobrevivência do grupo dependia essencialmente da sobrevivência da prole que, por sua vez, dependia da qualidade e da intensidade de cuidados e de informações fornecidas pelos pais e pelo grupo como um todo.

O Futuro do Homem

Para saber qual será o futuro da espécie humana, devemos agora responder se as forças que possibilitaram nossa evolução continuam atuando e se o homem, como é atualmente, seria o ponto final de um desenvolvimento evolutivo. Por mais longa que tenha sido a linha de desenvolvimento que culminou na criação do homem (veja o texto Uma Volta ao Passado, abaixo), seu curso evolucionista chegou praticamente ao fim, ou pelo menos a uma restrição, e não é provável que a linhagem humana produza jamais outra coisa a não ser o homem.

Já tendo alcançado praticamente o limite do desenvolvimento orgânico, o homem se encontra no fim de sua evolução física, no que diz respeito aos seus aspectos mais importantes. Poderá ainda perder algum cabelo, seus dentes poderão degenerar um pouco mais e as unhas dos pés poderão desaparecer, mas não ocorrerão grandes transformações, pois há tempos temos nos poupado das forças da natureza que moldaram nossa evolução.

Graças à superioridade de intelecto, o homem continuará como homem pelo resto de sua existência. E essa existência não poderá ser abreviada por qualquer grupo de animais conhecidos, mas somente por ele mesmo. Ainda assim, enquanto não houver uma sintonia global sobre a urgente necessidade do desenvolvimento sustentável, com preservação, decência e dignidade para todos os seres que habitam este Planeta, o homem, um triunfo biológico da natureza, não poderá considerar-se vitorioso do ponto de vista social e ecológico.


Instituto Ecológico Aqualung

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*Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor do livro GUIA AQUALUNG DE PEIXES, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês AQUALUNG GUIDE TO FISHES, editado em 1992, do livro SERES MARINHOS PERIGOSOS, editado em 1998/99, do livro PEIXES MARINHOS DO BRASIL, editado em 2000/01, do livro TUBARÕES NO BRASIL, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).


Uma Volta ao Passado

Há dois aspectos da evolução humana que devem ser claramente distinguidos: um é a ramificação da linhagem original, ou a diversificação do hominídio da linhagem dos antropóides, e o outro é o desenvolvimento de uma nova linhagem hominídia para atingir o nível humano. Daí emergem duas principais perguntas:


1 - Quando e onde a linhagem hominídia se separou da linhagem antropóide e como era o elo perdido?

2 - Quais foram os estágios pelos quais passou a linhagem hominídia até atingir o nível humano atual?


O elo perdido
Por um longo período, o estudo do homem fóssil limitava-se essencialmente à procura de uma forma intermediária, o chamado “elo perdido”. As primeiras reconstruções ilustravam uma criatura intermediária entre o chimpanzé e o homem, algo como o “homem-macaco”, implicando no conceito de que o chimpanzé seria o ancestral direto do homem e que o chimpanzé teria interrompido sua evolução logo após ter dado origem à linhagem humana. Assim como esta, a suposição adicional de que os macacos antropóides atuais seriam formas primitivas e que o homem deveria ter passado por este estágio na evolução também estava errada.

As descobertas recentes dos fósseis deixam bastante claro que os macacos antropóides evoluíram tanto quanto os hominídeos desde sua separação do ramo comum. Em muitos aspectos morfológicos, as linhagens antropóides parecem mais distintas do ancestral comum do que o homem moderno.

Para encontrar este ancestral comum devemos voltar no tempo e tentar procurar uma criatura na qual faltem as especializações dos antropóides atuais e o completo bipedalismo e desenvolvimento cerebral dos hominídeos recentes, mas que possua algumas das características que diferem os macacos hominóides dos macacos cercopitecóides.


Apresentação simplificada da ordem dos Primatas

1- Subordem dos Prosímios (lêmures, indris, gálagos e társios).

2- Subordem dos Símios ou Antropóides

2.1- Grupo dos Platirrinos (macacos com cauda do novo mundo, como os macacos-aranha, macacos-prego, bugios, sagüis e micos).

2.2- Grupo dos Catarrinos

2.2.1- Superfamília dos Cercopitecóides (macacos com cauda do velho mundo, como os babuínos, mandris e macacos colobos, langures e cercopitecos).

2.2.2- Superfamília dos Hominóides (macacos sem cauda - Antropóides)

2.2.2.1- Família dos Hilobatídeos (gibões).

2.2.2.2- Família dos Pongídeos (orangotangos).

2.2.2.3- Família dos Panídeos (gorilas e chimpanzés).

2.2.2.4- Família dos Hominídeos (homens).

Cabe acrescentar que a vulgar denominação de macaco ou símio é utilizada para os macacos com cauda. Para os macacos sem cauda, como os orangotangos, chimpanzés e gorilas, utiliza-se a denominação antropóide.

Cabe acrescentar que a vulgar denominação de macaco ou símio é utilizada para os macacos com cauda. Para os macacos sem cauda, como os orangotangos, chimpanzés e gorilas, utiliza-se a denominação antropóide.

A seguir, será descrito, de forma breve e cronológica, como ocorreu essa evolução através dos períodos de nossas Eras. Os comentários para responder às duas perguntas formuladas anteriormente aparecerão destacados com tipologia diferente.

Fim do Período Cretáceo (70 a 65 Milhões) - Fim da Era Secundária

A África está separada da Ásia, a América do Norte próxima da Europa e a América do Sul está se afastando da África. O Clima é quente em todo o planeta. Os dinossauros (do período Jurássico) ainda dominam a Terra.

70 milhões - Aparece na América do Norte o mais antigo ancestral direto da ordem dos primatas, um pequeno mamífero noturno, insetívoro e parcialmente frutívoro, do gênero Purgatorius. O desenvolvimento das plantas superiores floríferas possibilitou aos primatas, essencialmente frutívoros e folífagos, conquistarem este novo nicho ecológico.

65 milhões -
Por uma combinação de restrição na variabilidade genética e a explosão catastrófica de um enorme meteorito na Terra, os dinossauros desaparecem em torno dos 65 milhões de anos. Esse evento possibilitou aos mamíferos (e primatas) ocupar os diversos nichos sem concorrências e expandir-se com grande variedade.

Período Paleoceno (65 a 53 Milhões) - Início da Era Terciária

Começa o aquecimento gradual de todo o planeta.

60 Milhões - Aparece a primeira subordem (Plesiadapiformes) de primatas conhecidos (primatas arcaicos), do gênero Plesiadapis. Semi-arborícolas, frutívoros e insetívoros, com 0,5 a 3 kg, viveram nas florestas da Europa e da América do Norte e extingüiram-se sem deixar descendência.

Período Eoceno (53 a 34 Milhões) - Expansão dos Primatas modernos

Foi o período mais quente da Era Terciária, onde as florestas tropicais ocupavam até o círculo Ártico.

50 Milhões -
Surgem nas florestas de palmeiras e sequóias da Europa os primeiros verdadeiros primatas, da subordem dos Prosímios, o gênero Adapis. Arborícolas, pesando cerca de 1,5 kg, se alimentavam de folhas e frutos. São os ancestrais da infraordem dos Lemuriformes, do gênero Lemur dos dias atuais (os lóris, indris e gálagos da África e sul da Ásia e os lêmures de Madagascar, na África).

Surgem também, no mesmo habitat, na Europa e América do Norte, os primatas da infraordem dos Omomiíformes, o gênero Necrolemur. Arborícolas noturnos, pesavam cerca de 300 gramas e se alimentavam de folhas, frutos e insetos. São os ancestrais da infraordem dos Tarsiiformes, do gênero Tarsius dos dias atuais (társios ou macacos tarsióides do sul da Ásia).

Período Oligoceno (34 a 23 Milhões) - Expansão dos Símios

Começa a ocorrer uma queda gradual da temperatura na Terra, formando uma calota polar no Pólo Sul. As estações passam a ser mais bem definidas fora das áreas tropicais, provocando o desaparecimento dos primatas na Europa. Os movimentos tectônicos criam uma grande falha no leste da África.

30 Milhões - Surgem os primeiros primatas da subordem dos Símios ou Antropóides, da qual pertencem todos os primatas modernos, incluindo o homem. Aparecem no Egito, Marrocos e Árgélia macacos quadrúpedes arborícolas da infraordem dos Parapithecóides, o gênero Apidium. Pesavam de 0,25 a 1,5 kg e se alimentavam de folhas e frutos. São os ancestrais dos Platirrinos da América do Sul, porém extingüiram-se sem deixar descendência.

Surge o gênero Branisella, da infraordem dos Platirrinos (macacos com cauda ou símios do novo mundo). São os mais antigos primatas da América do Sul, descendentes dos Parapithecóides da África que emigraram acidentalmente no Eoceno para a América do Sul (novo mundo) em jangadas naturais através do oceano Atlântico, que na época tinha apenas mil quilômetros de distância entre a África e a América do Sul. Arborícolas, viviam nas florestas tropicais e já apresentavam as características dos Platirrinos: nariz achatado, rosto mais curto e 36 dentes. Pesavam 1 kg em média e se alimentavam de folhas e frutos. Deles descenderam os pequenos símios arborícolas do gênero Tremacebus, que viveram por volta dos 17 milhões de anos na América do Sul e que são os ancestrais diretos do gênero Ateles dos dias atuais (símios como o macaco-aranha, da América do Sul e Central).

28 Milhões -
Surgem no norte da África os primeiros macacos “modernos” da infraordem dos Catarrinos (da qual pertencem todos os primatas modernos, incluindo o homem), do gênero Aegyptopithecus. Foram os primeiros a apresentar as características dos Catarrinos: nariz mais estreito e dentição “moderna” de 32 dentes. Não obstante, ainda apresentavam traços antigos, como focinho longo e órbitas afastadas. Esses macacos quadrúpedes arborícolas eram exímios saltadores, pesavam cerca de 7 kg e se alimentavam de frutas e folhas. Extingüiram-se sem deixar descendência.

Comentário - O Aegyptopithecus zeuxis, que viveu no Egito há cerca de 28 milhões de anos, é primeiro fóssil que é claramente um macaco antropóide e pode ter sido o ancestral do gênero Dryopithecus.

1a Metade do Período Mioceno (23 a 16 Milhões) - Expansão dos macacos Hominóides

Com exceção do Saara, toda a África era coberta por florestas. Há cerca de 16 milhões de anos, violentas forças subterrâneas provocaram fortes movimentos tectônicos e o afundamento de enormes blocos que fizeram surgir na grande falha no leste da África o hoje denominado Rift Valley (Vale do Afundamento), com mais de seis mil quilômetros de extensão no sentido norte-sul (do Líbano à Moçambique). Aparecem os primeiros macacos das superfamílias Cercopitecóides (macacos com cauda ou símios do velho mundo __ África, Ásia e Europa) e Hominóides (macacos sem cauda). Os macacos hominóides se expandem por toda a África. A ligação da África com a Ásia, através do surgimento de um istmo, permitiu a migração da fauna e possibilitou a evolução dos macacos hominóides.

17 Milhões - Surgem na África os representantes do gênero Victoriapithecus (da superfamília Cercopitecóides). Quadrúpedes com hábitos terrestres, pesavam cerca de 7 kg e se alimentavam de frutas e folhas. Deles descendeu o gênero Theropithecus __ enormes babuínos com 50 a 100 kg que viveram por volta dos 3 milhões de anos e que se extingüiram provavelmente por serem uma das caças prediletas dos primeiros hominídeos __, que é o ancestral direto do gênero Colobus dos dias atuais (grupo mais numeroso e variado dos símios com cauda do velho mundo, com cerca de 80 espécies, como os babuínos, mandris e macacos colobos, langures e cercopitecos de toda a África e sudoeste da Ásia).

Os primeiros representantes da superfamília Hominóides foram os macacos quadrúpedes, do gênero Dendropithecus, que habitavam as florestas da África, nas árvores e no solo, e pesavam cerca de 9 kg. Deles descendeu o gênero Pilopithecus, formado por macacos quadrúpedes, com 5 a 6 kg, que viveram há cerca de 10 milhões de anos na Europa e Ásia. Esta ramificação se extingüiu sem deixar descendentes. Os representantes do gênero Hylobates (da superfamília Hominóides) são os macacos gibões dos dias atuais que vivem nas árvores das florestas tropicais do sudoeste asiático e Índias Orientais.

Comentário - Os gibões representam um grupo muito antigo cuja origem é ainda um mistério, mas estima-se que sua ramificação tenha se separado da nossa há cerca de 23 milhões de anos e nada tem a ver com a ancestralidade do homem.

Os representantes do gênero Proconsul foram os primeiros macacos hominóides a apresentar a face mais curta e uma caixa craniana mais globulosa. Viveram na África e pesavam de 18 a 50 kg. Deles, descenderam duas ramificações que tiveram evoluções paralelas extintas: o gênero Dryopithecus, com 20 a 35 kg, que viveu na África, Europa e Ásia dos 16 aos 8 milhões de anos atrás, e o gênero Oreopithecus, com cerca de 30 kg, que viveu na Europa por volta dos 5 milhões de anos. Este último já apresentava semelhanças com a bacia e o fêmur dos hominídeos, o que permite supor que, apesar de serem bons arborícolas, já eram dotados de uma rudimentar locomoção bípede.

2a Metade do Período Mioceno (16 a 5,5 Milhões) - Macacos Hominóides povoam a Eurásia

A África e a Ásia se juntam, ocorrendo o mesmo com as Américas. As florestas tropicais apresentam um forte crescimento na banda meridional da Eurásia. Enquanto alguns macacos hominóides permanecem na África, outros vão povoar a Europa e a Ásia.

16 Milhões -
Surgem no leste da África, Europa e Ásia os macacos hominóides do gênero Silvapithecus ou Ramapithecus. Pesavam de 40 a 80 kg, apresentavam um focinho menor do que os outros antropóides e talvez uma dieta menos exclusivamente vegetariana.

Comentário - O Silvapithecus punjabicus, que viveu dos 14 aos 7 milhões de anos atrás, é primeiro fóssil que é tipicamente um macaco hominóide. É provável que o Silvapithecus tenha se diferenciado em sua ramificação a partir do gênero Dryopithecus 18 a 15 milhões de anos atrás. Todos os caracteres que diferem Silvapithecus de Dryopithecus estão na linha de desenvolvimento em direção aos caracteres hominídios.

Dos Silvapithecus descenderam duas ramificações. A primeira, que teve uma evolução paralela extinta, foi o gênero Gigantopithecus, que viveu no sudeste da Ásia entre 1,4 e 0,5 milhão de anos atrás. Pesando de 170 a 300 kg, foi o maior primata que já existiu na Terra. A segunda ramificação originou o gênero Pongo dos dias atuais, com cerca de 90 kg (os orangotangos das florestas tropicais de Bornéu e Sumatra, no sul da Ásia).

Comentário - A pergunta sobre quando a linhagem hominídia se separou dos antropóides ainda não pode ser respondida, mas podemos eliminar hipóteses. Como não existem registros fósseis do orangotango, os estudos devem se basear na comparação dos antropóides atuais. Havia antigamente uma aceitação de que a linhagem do homem tinha se separado muito antes de os antropóides se diferenciarem em orangotango, gorila e chimpanzé. Um estudo comparativo das proteínas, cromossomos e parasitas internos e externos, contudo, indicou decisivamente que os antropóides africanos (gorilas e chimpanzés) são mais semelhantes ao homem do que os orangotangos da Ásia. Por isso, é quase certo que a linhagem do orangotango tenha-se separado bem antes dos demais antropóides/hominídios.

14 Milhões - Surgem na África os macacos hominóides do gênero Kenyapithecus, que já apresentavam uma adaptação a ambientes de florestas com grandes clareiras. Pesavam em torno de 30 kg e possuiam uma mandíbula robusta, molares com esmalte grosso e grandes pré-molares superiores, indicando que as frutas com casca dura faziam parte de sua dieta. Desapareceram por volta dos 2 milhões de anos sem deixar descendência.


8 Milhões - Ocorrem na África novas movimentações tectônicas no Rift Valley, forçando a emersão de rocha liquefeita e criando a elevação dos planaltos __ cadeias de montanhas com 6.400 quilômetros de estensão no sentido norte-sul da África. Esta barreira natural recém formada passou a reter os ventos e nuvens que chegavam do oeste modificando drasticamente o clima na região leste.

Comentário -
Este evento marcou a nossa evolução e nos ajuda a responder quando, onde e porque a linhagem hominídia se separou da linhagem antropóide. Podemos também admitir que, provavelmente, o “elo perdido” estava presente nessa época, em que as espécies de macacos hominóides viviam nas árvores em toda a África.

Essa linha divisória criou dois ambientes distintos. O lado oeste ou ocidental permaneceu recebendo a influência dos ventos e nuvens, que significava chuvas constantes, e não sofreu grandes mudanças climáticas. Suas florestas tropicais foram o ambiente da ramificação dos ancestrais dos gorilas e chimpanzés. Por volta dos 6 a 5 milhões de anos ocorreu uma bifurcação dessa ramificação. Uma originou o gênero Gorilla dos dias atuais, os maiores primatas com 90 a 200 kg (os gorilas das florestas tropicais da África). A outra originou o gênero Pan dos dias atuais, com 30 a 60 kg (os chimpanzés e bonobos da África).

O lado leste ou oriental, por sua vez, passou a não receber essa influência e, com as drásticas mudanças climáticas, foi gradativamente se tornando o ambiente meio árido das savanas. Sem as grandes florestas e suas árvores, que significavam abrigo e alimento, nossos ancestrais tiveram que se adaptar a este novo habitat e evoluir para a vida no chão e para uma mudança em sua dieta. (Veja "respondendo a uma terceira pergunta", mais à frente.)

Período Plioceno (5,5 Milhões a 1,6 Milhão) - Fim da Era Terciária - Surgem os Hominídeos

A geografia da Terra vai se tornando praticamente igual ao que hoje conhecemos. Ocorrem os ciclos glaciares e os níveis dos oceanos tornam-se inconstantes. Os macacos hominóides desaparecem da Europa. Na África, a alternância de períodos frios e quentes provoca a sucessão de épocas secas e úmidas e faz com que a savana progrida. Os macacos hominóides ultrapassam o Rift Valley em direção ao oeste tropical. Os hominídeos se expandem por toda a África e provavelmente Ásia e Europa.

Comentário - Surge nas savanas do leste da África o primeiro estágio da linhagem hominídia, e aqui começa a resposta à segunda pergunta.

4 Milhões - Surgem os primeiros macacos bípedes representantes da família dos Hominídeos, da qual também pertencemos. É o gênero Australopithecus (espécies Australopithecus anamensis e afarensis). Essencialmente vegetarianos e pesando em torno de 50 kg, sua locomoção bípede ainda era imperfeita __ já apresentavam semelhanças na conformação dos ossos pélvicos, extremidades inferiores e articulação entre o crânio e a coluna vertebral, indicando uma postura ereta, apesar de não ter sido tão perfeita como a do homem moderno __ e o volume de seu cérebro era muito pouco maior do que o de um chimpanzé (média de 380 cc). Seu mais conhecido representante arqueológico, com 3,15 milhões de anos, é Lucy, um exemplar A. afarensis feminino adulto que media em torno de 1,30 m. Desapareceram por volta dos 2 milhões de anos e não deixaram descendência.

3 Milhões - Surgem no sul da África os primeiros indivíduos da espécie Australopithecus africanus. Também vegetarianos e menos corpulentos do que os A. afarensis, com cerca de 45 kg e capacidade endocraniana média de 460 cc, viveram até 2,5 milhões de anos atrás e são os ancestrais do gênero Paranthropus (espécies Paranthropus boisei e robustus), formado por hominídeos com cerca de 50 kg que viveram a partir de 2,8 milhões de anos atrás no leste e no sul da África. Diferiam de seus antecessores em nicho alimentar (sementes de gramíneas), locomoção (menos ereta) e habitat. Suas mandíbulas eram mais fortes, com molares trituradores grandes e o cérebro mais desenvolvido. Já utilizavam pedaços de galhos para escavar o solo. Os Paranthropus sucumbiram à competição com os outros hominídios (que evoluiram de Australopithecus para Homo) por volta de 1,4 milhão de anos sem deixar descendência.

2 Milhões - Surgem na África (e possivelmente na Ásia e Europa) os indivíduos da primeira e mais antiga espécie do gênero humano, o gênero Homo (espécie Homo habilis), nossos ancestrais diretos. Com 35 a 40 kg e 1,40 a 1,55 m e locomoção bípede mais perfeita, sua capacidade endocraniana já era em torno de 730 cc (metade do Homo sapiens, com 1500 cc). Desenvolveram as técnicas do talhe dos seixos e construiram os primeiros rudimentos de abrigos para proteção. Conviveram com os últimos Australopithecus e com os Paranthropus na África e com os Gigantopithecus na Ásia. Enquanto os Australopithecus eram vegetarianos, os Homo habilis já tinham uma dieta parcialmente carnívora, que se traduzia em atividades de caça e de busca e consumo de carniça.

Comentários - A passagem (evolução) de Australopithecus para Homo é a prova cabal de que é a pressão seletiva do ambiente que determina as variações na evolução das diferentes partes do corpo. Nos Australopithecus o pélvis, as extremidades, a forma da fileira de dentes e o padrão de cúspides dos molares são muito semelhantes aos do homem moderno, mas as gigantescas mandíbulas, a face prognata e o cérebro pequeno eram muito semelhantes aos dos macacos antropóides. Essa dualidade morfológica, o meio caminho entre o macaco antropóide e o homem, ficou patente na descoberta do homem de Java. Antes da descoberta de Australopithecus, o fóssil hominídio mais famoso, descoberto em 1891 na Ilha de Java, foi cunhado de Pithecanthropus erectus (“homem-macaco ereto”). Alguns autores consideravam os restos fósseis como sendo de humanos, enquanto outros acreditavam ser de macacos antropóides. A opinião da maioria era de que o fêmur não podia ter relação com a calota craniana porque era de um “tipo diferente”. Essa descoberta provocou uma das mais calorosas controvérsias na história da antropologia.

1,8 Milhão -
Surgem na África os primeiros indivíduos da espécie Homo erectus. Um pouco mais corpulentos, com cerca de 55 a 85 kg e 1,50 a 1,60 m, e com capacidade endocraniana bem maior (de 800 a 1000 cc), estes homens foram caçadores exímios e os primeiros a dominar o uso do fogo entre 1 milhão e 500 mil anos atrás.

Período Plistoceno (1,6 Milhão a 10 mil anos) - Início da Era Quaternária - Expansão do homem e declínio dos primeiros hominídios
A geografia da Terra já é igual ao que é hoje. As grandes variações climáticas (glaciações) provocam a extinção de várias espécies de mamíferos, incluindo os hominídeos. Somente a espécie Homo erectus sobrevive e se expande por toda a África e povoa todo o velho mundo (Ásia, Europa e Extremo Oriente) entre 1,6 e 1 milhão de anos atrás. Perto do final do Plistoceno, as glaciações (denominada a Idade do Gelo) terminam e o planeta começa a se aquecer gradualmente. Com isso, boa parte das geleiras derretem e o nível dos oceanos sobem consideravelmente. Do Homo erectus descenderam duas ramificações com evoluções paralelas: uma na África e Oriente Médio e outra na Europa.

Comentário - Cabe aqui uma recapitulação e uma explicação. Sabe-se que o Australopithecus africanus deu origem ao Homo habilis, que originou o Homo erectus e que este evoluiu para o Homo sapiens. Quando se fala que uma espécie originou a outra, deve-se ter em mente que isto não ocorreu de forma súbita, mas sim de modo gradual e contínuo através de respostas a pressões seletivas do ambiente. Assim, existiram diversas populações intermediárias contemporâneas neste processo evolutivo, algumas chegando ao nível de espécie. As populações mais evoluídas conviveram na mesma época, disputaram os mesmos recursos e foram capazes de encontrar e exterminar as populações ou espécies irmãs mais atrasadas. Do erectus ao sapiens, por exemplo, aparecem em diversas regiões do planeta vários grupos de espécies, como os homens de Java, de Pequim, de Heidelberg, de Piltdown e da Rhodésia que viveram entre 600 e 200 mil anos atrás. O arquétipo do homem fóssil (onde se encontram criaturas que combinam um crânio moderno com um maxilar primitivo, do homem de Piltdown, às criaturas com carcaterísticas semelhantes aos neandertais, como o homem da Rhodésia) consiste de muitos grupos de famílias ou pequenos bandos isolados por numerosas barreiras geográficas ou ecológicas. Provavelmente havia muito pouca mistura entre bandos vizinhos e a diferenciação local deve ter sido muito intensa. Pode-se supor que estas populações tenham sido muito mais distintas entre si do que são hoje as “raças” do homem moderno.

200 mil anos - Europa - Surgem os primeiros indivíduos do gênero Pré-neandertaliano, com 60 a 70 kg e 1,55 a 1,65 m, que povoaram as montanhas frias da Europa por mais de 100 mil anos. Deles descenderam os indivíduos da espécie Homo sapiens neanderthalensis ou o homem de Neanderthal, que povoaram a Europa e parte da Ásia a partir de 100 mil anos atrás.

Com feições rudes e pesadas, sua cabeça maciça, inclinada e projetada para a frente, não era ereta. A estrutura dos ossos da perna mostra que eles não podiam manter-se totalmente eretos e andavam com uma pronunciada curvatura dos joelhos balançando-se grotescamente. A expressão “homem das cavernas” pode ser atribuída originalmente aos neandertais. Em sua época, o clima antes quente na Europa começou a mudar e as geleiras do norte mais uma vez avançaram para o sul. As tribos de neandertais tiveram que abandonar sua vida errante e procurar cavernas e grutas para se abrigar. Alimentavam-se tanto de vegetais como de animais e suas armas eram construídas de madeira e pedras grosseiramente lascadas. Apesar de estarmos acostumados a ver o homem primitivo como um caçador de grandes animais, é muito mais provável que o homem de Neandertal fosse mais caça do que caçador.

Os restos de grandes mamíferos encontrados entre os remanescentes de suas moradias eram provenientes da coleta de carniça. Os homens primitivos eram um dos mais ativos aproveitadores de restos da caça dos grandes predadores. Gostavam de comer carne mas não tinham condições de caçar grandes animais para conseguir carne fresca. Raramente conseguiam capturar animais maiores do que aves, coelhos e ratos e complementavam sua dieta coletando ovos, moluscos e peixes mortos e capturando rãs, sapos, lagartas, vermes e pequenos répteis. Assim, é perfeitamente plausível imaginar um grupo familiar de neandertais em torno de uma fogueira devorando sua refeição composta de raízes, bulbos, lagartas e carne meio putrefada. Recentes descobertas evidenciam também que o homem de Neanderthal caçava e comia outros semelhantes humanos da mesma forma que os animais, podendo até mesmo ter praticado o canibalismo em estações muito frias.

Com o agravamento do clima frio, provocando a escassez de alimento, associado à feroz competição com o homem moderno que chegava à Ásia e à Europa (o representante fóssil europeu foi chamado de homem de Cro-Magnon), as populações dos neandertais começaram a declinar há 35 mil anos e desapareceram completamente por volta dos 30 mil anos, subjugadas e extintas pelo homem moderno. Esse fato assinalou a transição do selvagem absoluto, com pouca capacidade intelectual e pouquíssimos interesses que não dissessem respeito às árduas necessidades da sobrevivência, para um tipo de homem que, embora ainda mais selvagem que os índios atuais, já era inventor, artista e capaz de raciocínio abstrato.

200 mil anos - Leste e sul da África e Oriente Médio -
Surgem os primeiros indivíduos da espécie Homo sapiens arcaico, com 50 a 75 kg e 1,60 a 1,75 m. Seus fósseis datam de 200 a 100 mil anos. São os ancestrais da nossa espécie Homo sapiens sapiens ou Homo sapiens moderno, que surgiu há 100 mil anos no Oriente Médio. Viviam em grupos nômades coletando o que a natureza lhes dava, como frutas, tubérculos e folhas, e caçando eventualmente. Datam desta época os mais antigos instrumentos musicais e de pintura, ferramentas primitivas e os primeiros sinais de sepultamento de mortos.

Logo depois, entre 100 e 90 mil anos, o Homo sapiens moderno aparece também na África. Em seguida alcança a Ásia, há 70 mil anos, a Austrália, há 50 mil anos, e, finalmente, a Europa, povoada pelo homem de Cro-Magnon, por volta de 40 a 35 mil anos atrás. Como muitos outros povos primitivos, os homens de Cro-Magnon viviam ao ar livre, em cabanas ou tendas feitas de hastes de madeira e peles de animais, quando o clima era favorável, mas se refugiavam também nas cavernas, quando o tempo se tornava desfavorável. Foi em seus lares cavernícolas que foram encontradas as mais perfeitas relíquias arqueológicas, como fogões, facas, pontas de lança e utensílhos de pedra lascada, remanescentes de festins e celebrações, bastões de chifre de rena esculpidos, obras de arte esculpidas em ossos e marfim e as famosas pinturas ruprestes.

Entre 30 e 10 mil anos atrás, novas raças vindas da Ásia __
povos mais viris e acostumados a lutar __ invadiram a Europa e arrebataram a região de domínio dos Cro-Magnon, porém esses não se extinguiram totalmente, como aconteceu com os neandertais. Muitos deles se uniram aos invasores e em certas regiões da Europa permaneceram quase sem mudanças. Atualmente, existem na região da Dordogne (França), alguns milhares de pessoas que, racialmente (geneticamente), não diferem muito dos antigos “Cro-Magnards”

No entanto, não tardou para que esses povos que invadiram e se apoderaram da Europa, como o homem de Azil, fossem, eles próprios, expulsos para oeste por hordas de robustos guerreiros vindos da Ásia que traziam novas armas, como o homem de Breuil. E assim, durante milhares de anos, seguiram-se as invasões, uma após a outra, vindas quase sempre do oriente.

Os continentes americanos também foram povoados por essas raças vindas da Ásia, seguidas de outras mais. Existem várias hipóteses sobre este povoamento ou ocupação. Uma delas diz que houve quatro ondas migratórias para o continente americano. A primeira teria sido feita pelos antepassados do mais novo e notório fóssil humano brasileiro (e o mais antigo já achado nas Américas), encontrado nos arredores de Belo Horizonte (MG) e datado de 11500 anos __ Luzia, uma mulher de traços negróides com 1,50 metro de altura __, há cerca de 15 mil anos, cruzando de barco o extremo norte do Oceano Pacífico até a América do Norte e dali para a América do Sul. Viveram milhares de anos de forma tranqüila até serem dizimados na disputa por território e comida com a segunda onda migratória, ocorrida há 12 mil anos, que foi empreendida pelos povos mongóis siberianos que atravessaram o Estreito de Bering. Essa segunda leva deu origem aos índios atuais. Entre 10 e 5 mil anos atrás ocorreram as duas outras ondas migratórias. A terceira foi realizada pelos nadenses, que se estabeleceram na costa oeste americana, dando origem aos povos aztecas, e a quarta deu origem aos esquimós.

Desde os nossos antepassados hominídios até os dias atuais, quando transpusemos uma distância enorme entre o homem-macaco e o homem moderno, existe uma característica no desenvolvimento do homem que não mudou em sua essência: a invasão e domínio de áreas cobiçadas por espécies, grupos, povos ou raças com maior grau de desenvolvimento, através da força e da maior aptidão, subjugando, aculturando, absorvendo ou extingüindo a que dominava anteriormente aquela área.

Assim como ocorreu com os Australopithecus, com os Homo habilis e Homo erectus, com os neandertais e com os cro-magnons, aconteceu também com os índios americanos após a invasão das Américas pela “5a onda migratória”, empreendida pelos portugueses e espanhóis, que, mais uma vez, através da força advinda de um maior grau de desenvolvimento, invadiram, dominaram, colonizaram e extingüiram diversas raças a mais tempo estabelecidas.

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